
Nasci nas Missões, no sul do Brasil, terra de mulheres que não pedem licença para ser livres, como Anita Garibaldi. Terra onde os fios já existiam antes de mim, nas mãos das mulheres guaranis que teciam o mundo muito antes de qualquer nome ser dado a isso.
Vivi em países que me deixaram marcas que hoje habitam minha tapeçaria. Da Suíça trouxe as montanhas. Ora nevadas, ora verde-vivas, e o silêncio que só a imensidão ensina. Dos Estados Unidos, a vibração urbana, a expressão que não se contém. Da Bélgica, aprendi que a arte pode ser leve, irônica, satírica, e que o humor também é uma forma de verdade. De Portugal, recebi a memória dos pontos: a ancestralidade dos pontos de Arraiolos, técnica antiga e rara que o mundo ameaça esquecer, e que inspira profundamente meu trabalho.
Quando teço, minha mente vai para outro lugar. Entro em um fluxo, como quem entra no mar. E o mar aparece nas minhas obras porque é o que sou enquanto trabalho: movimento, ondas, nada que precise ser reto ou rígido.
A vida não é geométrica. A minha arte também não.
Cada fio é tempo. Cada passagem, uma camada de quem fui e de onde estive. Minha tapeçaria não decora paredes. Ela conta de onde venho, o que atravessei, o que me recuso a deixar morrer.
Quando você está diante de uma obra minha, está diante de todas essas geografias. E talvez, também, de algo seu.




